Brincando
- Estou com vontade de brincar com você hoje.
- Vá para sua casa, pegue a bola azul com listas vermelhas e o pião e volte para brincarmos.
- Mas eu já estou aqui, tenho vontade de brincar agora. Minha casa é longe e não quero ir até lá agora.
- Você sabe como sou, só consigo brincar com a bola azul com listas vermelhas e com o pião... Se você gostasse mesmo de mim, faria isso por mim.
- Sabe o que é... De vez enquando o pião escapa da minha mão e machuca. Eu também gosto da bola azul com listas vermelhas, mas às vezes esqueço de trazê-lá e fico sem disposição de voltar em casa para buscá-lá. E se testássemos hoje brincar de pular amarelinha? Afinal, não precisaríamos de nada que não estivesse à nossa mão imediatamente!!!!!!
- Pensando bem acho que você não gosta mesmo de mim.... Tudo é tão difícil quando quero brincar com você. Para mim todas as brincadeiras valem, mas você sempre complica as coisas.... Amarelinha é a única brincadeira que não gosto.
- Mas nós nunca brincamos de amarelinha, como você sabe que não será divertido? E o fato de eu não querer ir buscar a bola azul com listas vermelhas e o pião não quer dizer que não goste de você. Foi com você que escolhi brincar. Vamos?
- Você já jogou amarelinha antes?
- Sim! Quando estudava na outra escola brincávamos de muitas coisas e amarelinha era uma delas e era divertido. Seria muito bom brincar de amarelinha com você ou de alguma outra coisa que pudéssemos pensar juntos nesse momento.
- Eu sabia!!!!! Desde a hora em que você começou a falar eu sabia que suas brincadeiras na outra escola eram melhores que as nossas!!!! Eu sabia desde que te conheci que existiam outras crianças com que você se divertia muito mais do que comigo!!!!! Na verdade, o que você esta querendo é modificar o que sou, afinal minha natureza é a de brincar com a bola azul com listas vermelhas e com o pião, e você sabe bem disso. Esses são os meus valores, que por sinal são bem diferentes dos seus!
- Vamos combinar uma coisa... Hoje a gente tenta brincar de qualquer outra coisa que você quiser e da próxima vez eu não esqueço de trazer a bola azul com listas vermelhas e o pião, pode ser?
- Perdi a vontade de brincar. Você e seu autoritarismo, sempre impondo as formas como eu tenho que brincar....
- Mas eu estou aqui, mesmo sem bola azul com listas vermelhas e o pião, eu estou aqui, brinque apenas comigo.
- Você agora vai se fazer de vitima?
- Desculpe, estava só querendo brincar, mas podemos fazer outra coisa.
- Vamos sim fazer outra coisa... Eu vou para casa e vou brincar sozinho!!!! Quero brincar sozinho pra sempre!!!!
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- Oi, tudo bem? Estive te observando no pátio e tenho certeza de que poderia ensinar a você uma brincadeira maravilhosa... É com uma bola azul com listas vermelhas e com um pião. Tenho certeza de que você possui, afinal percebo que é uma pessoa inteligente. Você pode ir à sua casa buscá-los?
- Oi! Que bom te conhecer!!!! Sempre te admirei quando te olhava no pátio.... Claro que vou buscar..... se não tiver, passo e compro.
- Tenho certeza de que vamos nos divertir juntos por muito! Beijos, até já, fico esperando por você aqui!
Fechando Ciclos
Admito minha dificuldade em desistir e por isso desisti de tentar desistir.
O meu possível hoje é tentar dar um novo sentido para as situações em que me percebo desistindo, jogando a toalha. Na tradição dos grandes pescadores o peixe pescado deve ser devolvido à água. O que concede valor ao evento é a relação peixe/pescador enquanto ela se trava.Desistir então pode significar devolver o peixe ao mar, deixando que o curso da vida siga naturalmente e eu, pescadora volte para casa com a paz interior de quem não desistiu, apenas cumpriu um ciclo.
As Pedras do Meu Caminho
Tive pedra nos rim. Tanto para a medicina chinesa quanto para os reichianos elas relacionam-se intimamente com medo. Eu engrosso esse coro. Certamente elas tem essa relação e me deram muito medo!Diz-se popularmente que é uma das piores dores que podemos vivenciar. Acho que o medo também é.
Minhas pedrinhas (eram duas), estavam quietinhas faziam anos e de repente algo fez com que elas se movessem e provocassem sofrimento. Medos também só incomodam quando se movem... Medos quietos ficam adormecidos, como num sono hipnótico, de prontidão, aguardando o evento que os tirem da quietude e os tragam dolorosamente à consciência.
Eles (as pedras e os medos) me deram trabalho. Foram 6 dias de internação, dois procedimentos cirúrgicos, sonda, catéter e uma parafernália sem fim até que enfim, fiquei livre desse tormento - não sem antes ter a derradeira cólica, cinco dias após ter saído do hospital.
Fiquei livre das pedras, com dor e pesar. O que faço com os medos, agora?????
Solidão
Tenho a impressão de que pessoas que se amam exageradamente, quando brigam, não dão conta apenas de brigar - tem que se machucar. É preciso fazer a imagem mais feia possível do outro para conseguir romper, é preciso odiar.
O exagero talvez seja uma constante do amor.
O que faz com que vejamos aquele a quem amamos como nosso pior inimigo, deixando de lado a capacidade de suspender temporariamente nossos julgamentos para olhar para o outro simplesmente como uma pessoa que assim como cada um de nós, tem sentimentos e necessidades?
Julgamos, como só podemos julgar, tendo por parâmetro nosso mundo, nosso universo particular. E então, acreditamos que toda a humanidade pensa e age como nós.
Haja racionalidade para sair desse ciclo e perceber que esse “jogo de cena” pode ser apenas o espelho daquilo que somos, e que depositamos no outro nossas próprias incertezas, inseguranças, medos e culpas.
Assumir a responsabilidade sobre sí é um processo árduo, um enorme desafio. Enganar-se, culpando o mundo por nossos próprios sentimentos é uma das possibilidades de se fugir da realidade e se encastelar num mundo de fantasia e de idealização do outro e das relações.
E nesse castelo, só cabe um.
Vamos?
Descobri recentemente que o bicho que mora em mim é um dragão. É um dragão fêmea, com escamas laranja, vermelha, verde e azul muito brilhantes. Tenho certeza de que cada pessoa sabe qual é o animal que habita seus interiores, o problema é que muitas vezes nos esquecemos, e aí somente com o Exercício de Lembrar (isso será assunto de um outro post) é que ele novamente se nos revela.Meu dragão, ou melhor, minha dragão é um bicho que não suporta ouvir uma pergunta que comece com "Vamos....", sem responder imediatamente: "eu topo!". É impressionante como ela sopra a resposta em meus ouvidos, e mais impressionante ainda são os recursos de que tenho que dispor para analisar criteriosamente a proposta, usando preferencialmente a razão - se é que isso de fato existe - antes de disparar a resposta pronta.Minhas entranhas se contorcem toda vez que peço a ela que seja razoável comigo, que se acalme, que deixe (pelo menos uma vez!) o Tempo agir por si.... Ela sempre tem respostas na ponta da língua - que é partida ao meio, bem na ponta -, ela me diz que o Tempo é seu grande inimigo, pois ela tem prazo para habitar meu corpo, ou será que diz que meu corpo tem prazo para ser habitado por ela?E é travando esse diálogo que vamos nos entendendo, ou pelo menos tentando. Às vezes ela fica brava, emburrada mesmo, vira a cara e fica sem falar comigo. Nessas vezes eu sempre chego de manso e me ofereço a ela, submissa.Quando sou eu a me enfurecer com seus ímpetos, ela põe fogo em mim!Ousadia
Algumas vezes deixo de fazer coisas que "sinto" que deveria fazer.Posso dar inúmeras explicações para não tê-las feito, explicações racionais, que me convencerão mais firmemente de que não me arriscar foi a coisa certa, a única coisa que eu poderia ter escolhido.
Segundo o filósofo Espinosa, o que faço é me alienar, ou seja, se racionalmente não consigo explicar o que compreendo a partir do meu coração, da minha intuição, eu simplesmente fujo do problema, me privando assim de pensar amplamente e compreender minha natureza contraditória.
Alieno-me quando tento fugir das responsabilidades e consequências de minhas ações. Portanto não aposto, e mantenho o status quo. Sigo sendo quem sempre fui.
Hoje fiz diferente. Por se tratar do primeiro dia do ano que para mim chega carregado de anseios por mudanças, me permiti ousar e tomar uma iniciativa nunca antes experimentada. Eu senti que era o que eu deveria fazer, apenas deixei o coração guiar minha ação, sem expectativas ou pretensões de impor meu desejo ou minha opinião. Sem desejar que ninguém mais mudasse, senão eu mesma com minha nova atitude. Me permiti experimentar um agir diferente.
O resultado... se eu pudesse escolher, preferiria que fosse outro, mas fiquei muito orgulhosa por ter me arriscado, por ter apostado, por ter me permitido ter a esperança de que pode ser diferente.
Saudade
Meus textos dormem. Todos eles.
Quem sabe fazer massa folhada sabe que deve fazer a massa num dia, deixá-la dormir na geladeira para que no dia seguinte o extraordinário aconteça. Pois é, com meus textos a coisa se dá de forma muito semelhante... escrevo em um dia, deixo descansando em uma pasta bem fria e no dia seguinte, ou consigo manuseá-lo bem, ou ele desandou completamente e deve ser delicadamente encaminhado à lixeira. É impossível tentar reformar massa folhada ou texto indigesto!
Ela me pegou de surpresa um dia no trânsito e comecei a prestar atenção à letra, e foi tão marcante... me dizia tanta coisa e era tão enigmática. Volta e meia eu a estou cantarolando e cada vez que deixo a letra pousar em mim, novamente me surpreendo.Coloco o arquivo com a música e a letra logo abaixo para não matar ninguém de curiosidade.
Um dos trechos que me “fisgou” diz: “Eu morro de saudades do que era pra viver” que em seguida é completado pelo verso: “E todos os detalhes do que não aconteceu”.Não raro tenho saudade do que não vivi, e se olho para isso com meu raciocínio que é frio, falta sentido, falta lógica. É quando preciso utilizar outras faculdades, preciso não tentar compreender e me deixar apenas sentir, e me utilizando de uma frase de Clarice Lispector: “tenho que não indagar o mistério para não trair o milagre”.Das dores que conheço, a saudade é a pior. Que a vida tenha me dado motivos para ter saudade, não posso me queixar. Pior seria se passasse por ela sem conhecer essa dor. Saudade é um pequeno luto que aguarda o reencontro, e sendo luto só pode ser de coisa que foi viva, de memória, de ocorrido. Não seria um exagero, um despropósito, um ato masoquista incrementar todas as saudades que já sinto com as das coisas que não vivi? Do que exatamente é essa saudade?
Nesse ponto devo me resignar apenas a não entender pois acho que a resposta seria mais enigmática que a própria pergunta. Felizmente o Lenine me mostra que não sou a única... e pensando bem:Acho que tenho saudade da potência que não se fez ato.
Meio Almodóvar
LenineFoi só um ensaio
Foi só um insight
Durou muito pouco
Doeu muito mais
Foi trailer de filme
Ensaio de orquestra
Foi jogo suspenso
No auge da festa
Foi curto e intenso
Canção de Caymmi
Foi meio Almodóvar
Foi meio Fellini
Foi como um cometa
No céu da cidade
Foi breve promessa
De felicidade
Eu morro de saudades do que era pra viver
E vivo da viagem de reencontrar você
Meus olhos do passado num futuro que nem sei
De tantas outras vidas
Mil pontos de partida
E todos os detalhes do que não aconteceu
Repetem o roteiro pra mostrar você e eu
O filme recomeça e nunca chega até o fim
E nessa nova vida
Não tem a despedida
Foi só a voz guia
Foi nem a metade
Foi estrela guia
Foi tanta verdade
Um mero rascunho
Mas foi divindade
Grafite no muro
Da minha saudade
Exemplo e Inspiração
"A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você."
Ralph Waldo Emerson
Ouvi um dia desses a seguinte frase: "tal pessoa é um exemplo para mim", e fiquei incomodada. Ter alguém como exemplo me remete àquilo que deve ser imitado ou copiado. Me diz que existe um modelo, externo a mim, a quem devo espelhar. Esse modelo, portanto, deve ser imutável, deve permanecer sempre disponível às buscas por padrões.
A frase se referia a seres humanos como exemplo de comportamento ou de atitude, e esses não são coisas estáticas. Acho temerário pensar que eu possa ver alguém como exemplo, pois se o fizer, congelo essa pessoa num único lugar de ação e tendo a me frustrar caso esse outro aja de forma diversa ou posso cair na tentação de cobrá-lo, exigindo que ele mantenha sempre a mesma atitude e talvez tente impedir a experiência e o movimento. É ainda mais assustador cogitar que exista a possibilidade de que eu seja vista como exemplo, e, pior ainda, que tente sê-lo. Gosto de pensar que tenho fontes de inspiração. Que encontrar alguém que faça ou tenha feito algo que me encanta, me faz acreditar ser possível, me motiva na busca de competências que me faltam ou que precisam ser melhor direcionadas, me ajuda a olhar o mundo sob outra perspectiva, me mobiliza. Inspirar é sugar o ar para dentro, e quando sinto-me inspirada por alguém é como se colocasse um pedacinho dessa pessoa dentro de mim, sinto-me afetada e isso é um movimento interno que pouco tem a ver com o congelamento do outro. Inspirar pessoas é fazer junto, é fazer com, é participar da tentativa, é viver desafios, é sair do pedestal e pisar com os pés descalços no possível.Ponto de Inflexão
Encontro-me hoje, às vésperas do Natal, realizando um desejo para o qual tenho me preparado nos últimos tempos: iniciar um blog!
Na verdade, ele já foi iniciado há alguns dias com a escolha do local de hospedagem, cadastro, batismo e escolha do tema, e agora lanço-me ao desafio final de publicar meu primeiro post.Escolhi iniciar falando sobre pontos de inflexão (dentre tantos outros temas que pensei para inaugurar o blog), pois esse tem sido um tema vívido para mim, especialmente nos últimos dias.
Quando reflito sobre esse tema, logo me vem a mente aqueles momentos da vida em que decido - algumas vezes pela própria vontade ou desejo, outras por me sentir coagida pelas circunstâncias - mudar a direção por onde tenho trilhado.
Parece que uma chave gira em mim, um botão se desliga e eu sinto a necessidade visceral de mudar o rumo da prosa, pois me dou conta que aquela forma que eu vinha fazendo já não reflete as coisas em que acredito, ou não me fazem mais feliz.
Tenho uma forte crença de que o controle da minha vida está só e unicamente em minhas mãos, ao mesmo tempo que nutro a certeza de que devo me responsabilizar pelas consequências de minhas decisões. Portanto, em cada momento que sinto a tal "chave" virar, em que já não suporto mais o estabelecido me preparo internamente para o tempo que está para vir.
O momento seguinte é o da ação, o tal ponto de inflexão, que transforma, que altera estruturas, que afeta, que desequilibra, mas que sempre busca um lugar melhor e que sempre o encontra.


